Cactozinho


Que a distância e o tempo não façam ruir os novos laços, os novos versos que brotam singelos, como flores de cactos durante o inverno.

Anunciam assim o que realmente são, retiram parte do seu escudo, não se escondem, refletem agora o seu próprio coração, sua essência, a beleza há tanto guardada, esperando um momento propício para se revelar.

São singelos cactos floridos, que deixam um ‘ar de quero mais’ ao final da estação.


(C. Henrique de O. Nogueira)

Limbo

[ Continuação de 'O jeito mais fácil..." ]


Como eu ainda posso ter consciência do meu estado? Estou morto! Lembro de cair frente ao espelho do banheiro... A mão segurando a pia...


...

Meus olhos começam a abrir, não entendo. Vejo vultos ao meu redor... Está muito claro... Tudo incrivelmente claro. Estou deitado. Mexo as mãos em frente ao meu rosto... Estão trêmulas. Começo a distinguir algumas vozes ao fundo, e é como se um zumbido tomasse conta de todo o lugar.

Aos poucos vou me acostumando com a luz, com os sons, mas espera... Sinto algo estranho, me desespero. Há tubos saindo de minhas narinas, minha boca... Agulhas espetam os meus braços... Algumas pessoas me seguram agora, ainda não entendo o que elas dizem.

Não morri, infelizmente ainda não... Estou em um quarto de hospital e me sinto péssimo. Respiração ofegante, pulso acelerado... ‘bips’, luzes, prontuários... Os sons vão se distanciando mais uma vez... Desmaio, não morro, simplesmente desmaio.


(C. Henrique de O. Nogueira)

"Há nas matas cerradas um prazer, há nas encostas solitárias um arrebatamento, há uma sociedade, onde ninguém pode se intrometer. Um mar profundo, e música em seu lamento: Eu não amo menos ao homem, mas à Natureza mais..."


(Lord Byron)

O jeito mais fácil...

Acordo, lavo-me, miro os olhos refletidos no espelho... São os olhos de quem esconde uma dor no profundo do peito. Minhas mãos trêmulas tentam abrir o armário do banheiro, e com muito esforço consigo segurar os frascos cheios de pílulas. Paro um pouco. Quero ter certeza sobre o meu próximo passo... Infelizmente, certeza não é uma expressão/sentimento que tem sido rotineiro na minha vida.

Abro o frasco... Tomo as pílulas... Várias delas... Ao invés de água, busco ajuda em um copo de vodka. Não demora muito, caio. Despeço-me daquela imagem no espelho, imagem que costumava refletir um homem centrado, promissor... Mas isso hoje não existe mais.

Os olhos agora estão sem cor, opacos, já não vivo mais. Retirei-me do mundo de um jeito covarde, triste, digno de pena. Não tive forças pra continuar lutando, deixei-me consumir pela insegurança de minhas ações, vim a óbito.


(C. Henrique de O. Nogueira)

Música da vez!

Magrela Fever - Curumin


Eu me coço e saio fora.
Pensamento tá dormente.
Vida inteira pela frente, câmbio, quadra,
Marcha, freio, oleozinho na corrente.

De camisa amarelinha, com a magrelinha invocada,
cisco no olho, olha a brincadeira, guidon torto,
roda amassada, vou de qualquer maneira!

E eu assumo o risco e despisto com o meu riso,
na maciota, na boa, não vou ficar marcando toca
que a maldade corre solta.

Chinelo na maior categoria,
estilingando nas ladeiras se ajeitando com o dia
e me esparramo pelos buracos e histórias.

Riso, sinto o mel na mente,
sangue doce da vida nas sementes.
Lindo e leve vou levando
com a cabeça fria e o pé quente
e o coração bombando,
bombando,
bombando,
bombando,
bombando....

Acendendo as idéias,
(Ah) põe sebo nas canelas.

É fever na Magrela!
É fever na Magrela!

Acendendo as idéias,
(Ah) põe sebo nas canelas.

É fever na Magrela!
É fever na Magrela!

Acendendo as idéias,
(Ah) põe sebo nas canelas.

É fever na Magrela!
É fever na Magrela!

Acendendo as idéias,
(Ah) põe sebo nas canelas.

É fever na Magrela!
É fever na Magrela!

Eu sou assim...

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"Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco, e os pontos sobre os iss em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos."

(Pablo Neruda)

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"Procuro viver a vida sem medo e sem máscaras...
Minha unica arma e, por conseqüência, fraqueza, é minha sinceridade..."

(Henrique Nogueira)

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"Numa moldura clara e simples, sou aquilo que se vê..."

(Los Hermanos)

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"Eu sou assim, canto pra me mostrar..."
(Cazuza)

Dias quentes, palavras de atenção!

Capítulo 2 - Ternura (Parte 2)


Nando e Ana haviam se conhecido há pouco tempo, mas já estavam bem ligados um ao outro. Conheceram-se assim que Nando retornou de uma longa viagem feita na tentativa de resolver antigas pendências de sua família.

Ana era uma jovem escritora bastante dedicada a realizar seus interesses que costumava passar os seus fins de tarde sentada em um café, no centro da cidade, dividida entre cappuccino, rascunhos, livros e devaneios sobre seu próximo romance. Escrevia sobre quase tudo que lhe dispertasse interesse, desde uma folha sendo carregada pelo vento, a um casal de velhinhos sentados numa praça... Foi em uma dessas tardes que Ana conhecera Nando, o ‘rapaz sério da mesa ao lado’.

...

- Boa tarde! ... Ah... Um cappuccino grande, sem creme, por favor! – Nando fez o seu pedido sustentando um sorriso bastante acolhedor, enquanto permanecia escorado ao balcão. Ao receber o seu cappuccino, virou-se e foi em direção a uma das mesas que ficavam do lado de fora, voltadas para a rua. “Gosto de ver o movimento!”, falava ele.

Nando havia passado tanto tempo fora, que agora ele era quase um estranho naquela cidade. Não reconhecia mais as pessoas, os lugares... Os costumes. A prova é tanta que ao chegar a sua mesa Nando deparou-se com uma figura bem peculiar sentada na mesa ao lado, uma garota de cabelos desarrumados, tomando um café enquanto lia e escrevia ao mesmo tempo. Era Ana, em mais uma de suas epifanias diárias.

...

Por mais que Nando quisesse, era praticamente impossível não observar a garota. Permaneceu ali até não restar nenhum resquício de sol, nenhuma luz além da vida dos postes e luminárias do café. Foi então que ele resolveu puxar conversa com a moça de olhos grandes e lábios carnudos. Levantou-se e passou discretamente ao lado da mesa da moça, observando os livros amontoados e as folhas espalhadas, e pra sua sorte ele conhecia um daqueles livros, o “Sentimentos de um cego”, livro de um escritor da região, que por coincidência era seu amigo de longa data. Após uma ida rápida ao banheiro, Nando retornou e foi em direção a mesa da garota. Ao chegar foi logo falando do quanto gostava da narrativa daquele livro, com um ar de profundo conhecedor daquela história.

Como era de se esperar, a conversa rendeu bastante, e foi muito mais além de livros e rascunhos.


(C. Henrique de O. Nogueira)

Dias quentes, palavras de atenção!

Capítulo 2 - Ternura (Parte 1)

“Do alto é possível observar toda a cidade e todas as pessoas, e só de lá podemos perceber o quanto somos insignificantes diante dos colossais rochedos que nos cercam.”

Já passavam das 10 horas da noite, quando dois vultos começavam a destacar-se da sombra de uma grande árvore à beira de um penhasco. Com um pouco mais de atenção era possível identificar a silhueta de um casal. Era noite de lua cheia, e a lua ajudava a iluminar o caminho dos dois, que agora davam as mãos.

– Mesmo sabendo que é inevitável Nando, é difícil pra mim! – Falou a mulher, com uma voz triste e insegura. Tinha a pele lisa, o rosto afilado, cabelos um pouco abaixo dos ombros. – Eu não sei se consigo continuar com isso!

Os dois pararam um pouco. Nando olhou para a lua e seu rosto foi iluminado completamente. Era um rapaz moreno, olhos castanhos e cabelos negros. – Sempre tentei fazer com que você ficasse bem... Desde o início eu não queria te envolver nisso Ana, mas agora eu quero que você seja forte! – As palavras de Nando soaram como ‘duras’ e confortantes ao mesmo tempo, e a única reação de Ana foi um breve suspiro.


(C. Henrique de O. Nogueira)

Dias quentes, palavras de atenção!

Capítulo 1 - Angústia

O garoto – cabelos escuros, pele escura, estatura mediana – caminhava impaciente pelas ruas de sua cidade natal enquanto segurava um aparelho de aparência estranha, que emitia alguns “bips” e piscava uma luz vermelha.

Era meio dia de domingo, não havia nuvens no céu. O calor era insuportável.

Após caminhar por alguns minutos e atravessar alguns quarteirões, o garoto finalmente chega ao seu destino: um coreto em uma praça vazia. Não havia nada lá!

Parecia que todos haviam saído da cidade, e o único som que se escutava eram os “bips” vindos do aparelho.

Ele não entendia... Começava a ficar mais impaciente, angustiado... “mas esse é o lugar, só pode ser!”... Pára um pouco... Pensa... Uma leve perturbação invadia sua mente... – Essa droga deve estar quebrada! – Exclamava em alto e bom tom enquanto acertava o aparelho contra a palma da mão esquerda.

... De repente os “bips” cessam... A luz vermelha apaga...

S – I – L – Ê – C – I – O

Um ar de expectativa e receio pairava sobre o coreto.

Naquele momento um forte clarão tomava conta do céu antes azul, um clarão tão forte que chegava a quase cegar.

O garoto abaixou-se, como se esperasse ser atingido por alguma coisa, e cobriu o rosto com uma das mãos. E assim, tão de repente como começou, o céu retoma sua cor normal, um azul profundo, e o clarão desaparece.

Sem entender direito o que acabara de acontecer, o garoto endireitou sua postura e olhou para o aparelho em suas mãos. Agora, o que se via era uma luz verde, estática, e em sua tela era possível identificar os dizeres “Mensagem Recebida – Ler?”.


(C. Henrique de O. Nogueira)